O bug do ouro

gold-bugsRevisão: Rachel dos Santos Dias.

Antes de julho de 2012, mais especificamente antes de conhecer o Bitcoin [1], eu costumava ser um forte defensor do ouro e do padrão-ouro. Imaginava que o mundo ideal era aquele em que as pessoas utilizavam ouro no dia-a-dia e que as moedas locais fossem lastreadas em ouro e não de curso forçado [7] simplesmente.

O ouro parecia perfeito: tradicional, bonito, físico, com “valor intrínseco”, escasso e não falsificável. De fato, até o Bitcoin ser inventado, em 2009, o ouro era realmente a melhor forma de dinheiro. Muito superior a qualquer moeda fiduciária.

Mesmo depois de conhecer o Bitcoin, continuei por um tempo defensor ferrenho do ouro, inclusive criticando injustamente o artigo de um amigo sobre o tema [2]. Até já considerava que o Bitcoin era (levemente) superior, mas não imaginava que o ouro tinha um problema grave.

Por volta de junho de 2014, um artigo [3] me fez enxergar o que eu chamo agora de “o bug do ouro”. Se o ouro tivesse sido artificialmente projetado, como foi o Bitcoin, ele teria um “erro de projeto”, uma falha intrínceca que só seria possível de se notar hoje, num mundo digital e globalizado.

O bug basicamente é este: o ouro não é portável. É impossível mover rapidamente o ouro físico de um local para o outro, e essa dificuldade aumenta com a distância e quantidade. Isso não parece tão grave em uma primeira análise pois podemos pensar que 1) não frequentemente transferimos o dinheiro a uma distância muito longa 2) o ouro pode ser representado de outras formas, como papéis e também em forma digital. – o item 1 podia até ser verdade há um tempo atrás, muito antes da Internet e das viagens internacionais, mas hoje há uma necessidade de se transferir dinheiro à distância. Mesmo em pouca distância, como por exemplo, fazer compras pela Internet no mercado da esquina. Se fosse necessário transferir o ouro fisicamente, sem a necessidade de uma representação digital (item 2), você teria que ir fisicamente ao local para entregar o ouro, invalidando toda a comodidade conquistada pela tecnologia da compra à distância.

Então, sobre o item 1, podemos concluir que hoje é necessário que o ouro seja portável. A solução natural para o item 1 é, então, o item 2: criar representações virtuais do ouro.

O ouro físico se torna um lastro de uma representação digital, armazenado num local específico, sob custódia de alguma autoridade ou entidade supostamente confiável. Isso é distribuído, fazendo com que várias entidades tenham ainda que integrar o sistema delas entre si, para que a forma digital seja minimamente útil e o ouro seja artificialmente portável.

Contudo, como garantir que alguma entidade não está mentindo sobre a quantidade de ouro físico que possui? Como saber se um governo não está sendo corrupto e escondendo a real quantidade de ouro físico? São tantas empresas, governos, certificações etc. que no fim é difícil verificar realmente tudo, e o incentivo econômico para falsificar a representação digital do ouro aumenta.

Segundo aquele artigo que citei logo acima [3], estima-se que existam cerca de cem vezes mais papel de ouro do que o ouro físico. Realmente não sei dizer se é tanto assim, não verifiquei as fontes com cuidado, mas se for tudo isso é realmente alarmante! E, mesmo que não seja, é possível deduzir facilmente que a forma digital do ouro não mais tem o lastro completo de ouro físico. É altamente improvável que toda a representação digital do ouro tenha sua forma física equivalente.

Neste ponto, você poderia argumentar: “- então o segredo é apenas comprar e armazenar ouro físico. Dessa forma estarei protegido dessa bolha.”

A resposta é: não completamente. Você só estaria protegido SE e SOMENTE SE num futuro toda a economia ruísse, houvesse uma crise internacional bizarra, em que surgisse uma demanda real pelo ouro físico.

Isso é altamente improvável. Até que isso não ocorra, o que está acontecendo de fato é que o seu ouro, que deveria lhe proteger da inflação, está sendo inflacionado! Estão “imprimindo” ouro, ou mais especificamente, estão falsificando ouro, através dos papéis falsos, desvalorizando o seu rico dinheirinho no mercado. Mais ouro disponível, menos vale o seu ouro (seja ele físico ou em representação digital). A desvalorização do ouro só não é pior, porque mesmo uma moeda forte como o dólar, que geralmente é utilizada para comparar ao ouro, possui uma inflação significativa e o governo consegue imprimir mais dólares do que o crescimento de “ouro falso” no mercado.

Esse “bug” simplesmente torna o ouro obsoleto e, por mais triste que seja dizer isso, não recomendável para armazenamento em longo prazo.

É triste porque sempre fui um defensor do ouro e porque o ouro é insuperável nas características: tradicional e bonito. Na verdade, se o ouro deixar algum dia de ser um meio tão importante para se armazenar valor em longo prazo, até mesmo a sua tradição não vai importar mais. E, o bonito, é relativo. O metal pode até ser trabalhado e assumir várias formas em jóias lindas, mas sua característica básica é sempre a mesma: aquele dourado que hoje pode ser imitado por muitos outros tipos de materiais bem mais baratos.

A boa notícia é que, se a moeda fiduciária é um lixo e o ouro tem um bug grave, a tecnologia do Bitcoin surgiu para resolver esse bug: o Bitcoin é o ouro portável [4].

O Bitcoin supera o ouro em quase todas as características: ele pode assumir uma forma física (ainda não perfeita, mas é possível que seja quase perfeita no futuro) [5], tem “valor intrínseco” [6], é escasso (apenas 21 milhões de unidades no máximo para sempre) e não falsificável. De bônus, o Bitcoin ainda é facilmente verificável – com um software que executa num celular moderno é possível verificar sua autenticidade (hoje em dia isso é mais fácil que verificar a autenticidade do ouro) e, o mais importante em comparação ao ouro, é portável.

O Bitcoin nasceu no formato digital, dispensando qualquer representação intermediária para que ele seja portável e facilmente verificável. Ainda por ser totalmente distribuído, ele também dispensa qualquer autoridade central ou qualquer entidade supostamente confiável.

Sendo assim, se alguém pode ter o bem final (o Bitcoin) em si, e ela pode receber e enviar para o mundo todo de forma rápida e barata, e também pode verificar a veracidade facilmente por conta própria, por que ela teria uma representação desse bem? Ou por que necessitaria confiar em alguma entidade que guarda a sua forma física? Perceba que inserir intermediários apenas implica em menos segurança, em mais possibilidade de papéis falsos.

Para concluir, se o Bitcoin é superior ao ouro, por que ele vale hoje (dez/2015) aprox. 1052 vezes menos que o ouro no mercado? Isso acontece porque o ouro é mais tradicional. E esse item é muito importante. Ele é bem mais antigo que o Bitcoin e é usado como forma de armazenamento de riqueza há milênios. Não é fácil conquistar a confiança de alguém, ainda mais quando se trata de dinheiro. Além disso, o ouro tem algumas vantagens práticas: por ser mais tradicional e, portanto, valer muito mais, seu preço (poder de compra) é muito mais estável que o Bitcoin. Mesmo tendo o problema de ter a inflação por conta de papéis falsos que inundam o mercado, o Bitcoin é ainda tão insignificante e subvalorizado na economia mundial que sua volatilidade é alta, fazendo com que o nível de desconfiança aumente ainda mais e que não seja algo muito prático em curto ou médio prazo.

Tudo isso, porém, é irrelevante em longo prazo. Sendo o Bitcoin superior ao ouro e tendo o ouro um bug grave e evidente, a tendência é que o mercado adote, cedo ou tarde, o Bitcoin como o principal dinheiro do mundo.

Notas e referências

Veja também

3 comentários sobre “O bug do ouro

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