Por que a “falta de governança” (ou imutabilidade) do Bitcoin não é um defeito mas sim uma qualidade?

Cryptomoeda (a junção de dinheiro + software) é algo novo e realmente é difícil determinar agora com exatidão (justamente por ser algo recente e não termos muito histórico para analisar) o que é mais vantajoso para armazenamento de riqueza em longo prazo: menos ou mais flexibilidade.

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Já apenas dinheiro é algo velho. Mais velho que a múmia do faraó. E sabemos que quando se trata de dinheiro, a imutabilidade é uma característica muito importante; há regras importantes como o controle de oferta (taxa de inflação), por exemplo. Pode-se dizer que o dinheiro estatal é altamente mutável comparado ao ouro, porque suas regras de oferta mudam o tempo todo e é controlada pelo governo. E, mesmo o ouro, não é totalmente imutável se pensarmos que sua oferta pode ser de repente expandida por uma nova mina de ouro, um meteoro ou um hipotético ouro artificial. Pensando no Bitcoin apenas como dinheiro (esquecendo um pouco que ele também é software como dito anteriormente), ele é muito superior às cryptomoedas mais mutáveis, como uma que está tendo um pequeno hype na comunidade brasileira por conta de um marketing invasivo e exagerado. Afinal, essas moedas mais mutáveis podem, por exemplo, alterar a oferta ou alguma regra econômica importante sob a pressão de instituições externas, ou por puro interesse dos stakeholders em algum caso específico. Stakeholders podem também, por exemplo, reverter mais facilmente transações que eles considerem prejudiciais, assim como aconteceu com o bailout do The DAO.

Já apenas o software não é tão antigo como o dinheiro, mas já tem algumas décadas. Sabemos também que o software é a todo momento ultrapassado por outro bem melhor, e a sua evolução é muito rápida. Muitos defensores de cryptomoedas mais mutáveis usam o argumento de que o Facebook praticamente matou o Orkut e MySpace, ou que o Spotify matou o Winamp, e dessa forma o Bitcoin poderia ser facilmente superado por uma moeda supostamente superior. Nesse aspecto, pode-se conjecturar que uma moeda mais mutável seja superior ao Bitcoin pois pode se adaptar com a necessidade: se aparecer alguma outra cryptomoeda capaz de fazer alguma coisa muito mirabolante, com pouco esforço essa moeda mais mutável também poderia incorporar a funcionalidade.

Tendo dito isso, há três fortes argumentos em favor do Bitcoin:

  1. Uma cryptomoeda é antes dinheiro que software. Por que digo isso? Porque o software em si é só um meio de alcançar o fim que é o dinheiro. Os requisitos de uma cryptomoeda devem responder perguntas como, mas não limitadas a:

    “Funciona bem? Eu posso transferir para qualquer lugar do mundo? Eu posso guardar em longo prazo? Tem fungibilidade razoável? Não tem inflação? É razoavelmente estável?”

    Se a resposta é: SIM para elas, então significa que o software já é adequado o suficiente. Se a resposta é NÃO, então todo o projeto já está inviabilizado e não pode mais ser considerado sequer um dinheiro ou cryptomoeda. Dificilmente alguém inventaria algo mirabolante que ultrapasse a principal inovação de qualquer cryptomoeda: o poder de ser portável e intocável por agentes externos; o poder que o ouro não tem (ver meu artigo O Bug do Ouro).

  2. Ao permitir que o software seja facilmente mutável, você corre o risco de, numa tentativa de melhorar, inserir novos bugs, bugs desconhecidos em features pouco testadas – como bem sabemos ser bastante comum em qualquer desenvolvimento de software. Não só isso como uma alteração no núcleo pode inserir características que afetem toda a economia da moeda, como por exemplo aumentar a oferta. – fazendo com que uma daquelas perguntas do item anterior corram o risco de ser “NÃO”, tornando o projeto totalmente inviável como dinheiro, fazendo então com que o seu valor caia pra algo próximo de zero ou zero em algum caso mais catastrófico.
  3. O Bitcoin não é totalmente imutável. Portanto sabemos que pelo menos os bugs críticos de segurança, que podem inviabilizar o projeto como dinheiro (resposta NÃO para alguma das perguntas do primeiro item) serão resolvidos de forma muito rápida, como já foram no passado, conseguindo consenso geral, de nós e mineradores em pouquíssimas horas (da última vez foi aprox. 6 horas de instabilidade na rede, sem afetar hodlers de nenhuma forma).

Conclusão

O sistema de consenso adotado pelo Bitcoin que exige que praticamente todo nó participante da economia, bem como a maioria dos mineradores, atualizem o sistema para que uma nova regra no protocolo seja adotada, é uma característica que dá valor ao Bitcoin, e não o contrário.

O Bitcoin fica então mais protegido a ataques externos. Um meio de armazenar riqueza em longo prazo que não pode ser controlado diretamente por ninguém e que é portável certamente será alvo de atacantes. O núcleo não pode ser vulnerável.

Como será o Bitcoin daqui 10 ou 20 anos? Será bem parecido com o que temos hoje. As regras são bem conhecidas. Como será aquela-moeda-mutável daqui 10 ou 20 anos? Será bem melhor ou fará mudanças catastróficas? Onde parece mais seguro manter sua riqueza armazenada em longo prazo?

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